Peripecias Nº 19 - 18 de octubre de 2006

AMBIENTE

 

 

“Privatização da Amazônia” é a ponta do iceberg

 

 

Carlos Tautz

 

 

 

Carlos Tautz, ensayista y periodista que integra el equipo de IBASE en Rio de Janeiro. Además mantiene el blog Outra Globalização sobre política, economía y medio ambiente, del cual tomamos el presente artículo.

 

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Passou quase despercebida a grave denúncia publicada em página interna da Folha de São Paulo em 3 de outubro, “Governo inglês divulga plano para privatizar a Amazônia”, sem que até hoje o Ministério das Relações Exteriores tivesse se manifestado sobre o que seria um grave atentado contra a soberania dos nove países da Bacia Amazônia – em especial o Brasil, que detém cerca de 70% da região.

 

Porém, essa proposta pode ser apenas a ponta de um iceberg. Em verdade, ela encobriria o debate sobre o Banco Mundial, que passa por uma reorientação para manter a hegemonia dos EUA e encontrou na mudança da matriz energética mundial uma janela de oportunidade.

 

A matéria da Folha se baseava em artigo do jornal inglês Daily Telegraph. Dois dias antes, o Telegraph revelou as sugestões do ministro inglês do meio ambiente, David Miliband, com o apoio do Primeiro Ministro Tony Blair, para transformar a floresta amazônica em um consórcio internacional e vender as árvores a “acionistas” que manteriam a floresta em pé.

 

Miliband atribuiu tudo a uma “distorção” do Telegraph, conforme O Estado de São Paulo em 4 de outubro. Entretanto, a desculpa clássica perde força diante do fato de o texto do tradicional jornal inglês ter sido escrito pelo editor de política da publicação inglesa, Patrick Hennessy, um dos mais importantes jornalistas na hierarquia da empresa.

 

O objetivo do ministro seria deter a emissão de gases causadores de mudanças no clima no planeta, provocada pelos incêndios na mata. O desmatamento da região amazônica caiu 31%, de 2004 para 2005, mas, no ano passado, ainda foram desflorestados 18.793 quilômetros quadrados.

 

O Telegraph diz ainda que ”Uma figura chave por debaixo dos panos tem sido Johan Eliash, o multibilionário homem de negócios nascido na Suécia, que é tesoureiro executivo do Partido Conservador [de Blair]. No início o ano, ele comprou 400 mil acres de floresta amazônica por estimados 8 milhões de libras”.

 

Segundo o The Sunday Times, Eliash, representante do que o jornal chama de movimento de “colonialismo verde”, teria adquirido em janeiro uma área, sem localização precisa, ao norte do rio Madeira (Rondônia).

 

No blog de Miliband o ministro inglês diz que a proposta seria apresentada em Monterey, México, uma semana depois, na reunião do G8 (o grupo dos sete países mais ricos e a Rússia, que nem é tão rica assim, mas possui três instrumentos de poder global: gás natural, petróleo e armas atômicas).

 

O G8 se encontrou com os 12 maiores emissores de gases de mudança no clima, Brasil entre eles, e colocaria em discussão as diretrizes do Banco Mundial para o financiamento de fontes renováveis de energia - a razão de fundo para a realização do evento.

 

Em busca de uma nova identidade após o fracasso da onda neoliberal, o Banco tenta se transformar no grande agente da nova economia ecológico-global e quer se tornar o maior broker de créditos de carbono do planeta, numa tentativa de transformá-los no sucessor do dólar estadunidense como moeda padrão da economia mundial.

 

Assim, o Banco, um dos principais vetores da hegemonia dos EUA no sistema financeiro, se anteciparia ao eventual fim da exploração economicamente viável do petróleo, o que se aguarda para um horizonte de 40 a 50 anos. Isto significaria uma ameaça à supremacia mundial de Washington, que baseia seu poder na capacidade militar e na articulação entre o monopólio da emissão de dólares com o controle das maiores reservas de petróleo do planeta.

 

Em Gleaneagles, o G8 determinou que o Banco Mundial elaborasse uma nova abordagem para o financiamento a energias renováveis e que a submetesse à reunião da entidade com o Fundo Monetário Internacional realizada em setembro, na ilha-Estado de Cingapura (uma cópia vazada e não-oficial do documento está em http://www.seen.org/PDFs/CEIF_aug06.pdf).

 

Propostas estapafúrdias como a de Miliband só vicejam porque há no Brasil um enorme caldo de cultura que viabiliza tais elucubrações. O País mistura a falta de prioridade na regularização e controle fundiário de vastas porções da Amazônia com uma absurda ausência de política pública para enfrentar o problema das mudanças no clima.

 

E, lá no fundo, o que possibilita tudo isso é o desinteresse de toda a sociedade brasileira incluindo governo, universidades e imprensa– pela região Amazônia e pelos incidentes climáticos que vêm crescendo de gravidade no País.

 

Publicado en el blog Outra Globalização. Reproducido en el semanario Peripecias Nº 19 el 18 de octubre 2006. Se reproduce en nuestro sitio con autorización del autor.

 

 

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