|
 |
|
|
J. R. Bessa Freire es periodista y
doctor en letras, especializado en la historia social del lenguaje y
las lenguas indígenas.
¿Desea comentar
este texto? Si es así complete el formulario de comentarios -
seguir
...
|
|
|
|
 |
|
|
|
"No puede Oviedo decir cosa chica ni grande,
porque no fué digno de lo ver ni de lo entender"
(Bartolomé de Las Casas, Historia de las Indias, T. V, p.116).
Nessa segunda-feira de carnaval, milhões de foliões, despreocupados com os
destinos da pátria, caíram irresponsavelmente no samba, enquanto um patriota
permanecia alerta e vigilante. Seu nome: Hélio Jaguaribe, o HJ. Ele não
sambou. Ficou de prontidão, como sentinela da nacionalidade na guarita do
Rei Momo. Graças ao seu plantão cívico descobriu, estarrecido, que estão
roubando a Amazônia do Brasil. Escreveu, então, um artigo denunciando os
larápios, com dicas de como recuperar o patrimônio subtraído.
"A perda da Amazônia", publicado segunda-feira na Folha de São Paulo,
identifica o tamanho do roubo. De saída, apresenta o inventário hiper-conhecido
das riquezas da região: a maior floresta tropical, a maior bacia
hidrográfica e a maior biodiversidade do mundo, reservas gigantescas de
ferro, bauxita, cassiterita, urânio, diamante e outros minerais. Todas essas
riquezas –segundo HJ– estão passando por um processo de "acelerada
desnacionalização".
Quem são os agentes desse processo? Como atuam? É preciso ter muita coragem
para dar nome aos bois. Jaguaribe tem. Para ele, o Brasil está perdendo a
Amazônia porque foram feitas –quem diria!– "insensatas concessões de áreas
gigantescas a uma ínfima população de algo como 200 mil índios", que se
tornaram donos de "cerca de 13% do território nacional". Desassombrado, ele
acusa os índios sem medo de pegar, em represália, uma flechada na bunda,
envenenada com curare.
O dedão dos gringos
Parece de um primarismo atroz, mas é isso mesmo que você leu: a culpa é dos
índios. Segundo HJ, eles são demograficamente inexpressivos, não possuem
armas, nem exércitos, mas são política e economicamente fortes, porque
abocanham 13% do território nacional, têm uma "lucrativa profissão com
contas em Nova York e telefone celular", além de poderosos aliados: as Ongs,
as Igrejas e os norte-americanos.
Na Amazônia, mais de cem Ongs –diz Jaguaribe– escondem atividades
reprováveis "sob a aparência de pesquisas científicas". Já a Igreja Católica
"atua como ingênua protetora dos indígenas", facilitando "indesejáveis
penetrações estrangeiras". Quanto às igrejas protestantes, seus "pastores
improvisados são concomitantemente empresários por conta própria ou a
serviço de grandes companhias".
HJ generaliza com extrema facilidade, sem citar fontes. Não hesita em
recorrer a desgastados chavões da direita nacionalistóide, quando revela as
estratégias para decepar a Amazônia e criar dentro dela várias pátrias: "O
objetivo que se tem em vista é o de criar condições para a formação de
´nações indígenas´ e proclamar, subsequentemente, sua independência com o
apoio americano". Portanto, embora não diga em que consiste esse "apoio
americano", fica claro que por trás de tudo está o dedão dos Estados Unidos.
Diante de acusação tão grave, os leitores esperavam que HJ fosse conseqüente
e propusesse medidas para afirmar a soberania nacional, tais como: a criação
de mecanismos para fiscalizar as Ongs e as Igrejas, a modernização do
Exército brasileiro, a organização e mobilização popular contra o
imperialismo americano, a expulsão das multinacionais que desrespeitam as
leis brasileiras, o protesto do Brasil na ONU, um pedido de esclarecimento
ao Governo Bush e, se necessário, o rompimento de relações diplomáticas com
os Estados Unidos.
Mas nenhuma medida dessas foi pensada por HJ. Ele é bonzinho com os
americanos e com os empresários, com quem fala fino. A bronca dele é com os
índios, com quem engrossa a voz. No Brasil de HJ, não há lugar para o que
ele denomina de "culturas paleolíticas ou mesolíticas no âmbito de um país
moderno". Por isso, a única solução que apresenta é anular as "concessões
gigantescas" de terras indígenas e reduzi-las "a proporções
incomparavelmente mais restritas". Se HJ teme efetivamente a perda da
Amazônia com "apoio americano" e, apesar disso, faz carinho aos gringos, é
porque nem ele mesmo acredita no que diz. Ou então não é o patriota que
pretende ser.
Sua proposta, na realidade, pretende liberar as terras indígenas para o
agro-negócio. Jaguaribe se entrega quando, entusiasmado, faz seus cálculos:
"O dendê, nativo da Amazônia e nela facilmente cultivável, constitui uma das
maiores reservas potenciais de biodiesel. Em apenas 7 milhões de hectares,
numa região com 5 milhões de km², é possível produzir 8 milhões de barris de
biodiesel por dia, correspondentes à totalidade da produção de petróleo da
Arábia Saudita". Ou seja, sem índios, é possível transformar a Amazônia num
gigantesco dendezal. Fica claro que a defesa da Amazônia aqui é apenas um
pretexto para justificar a ocupação das terras indígenas.
O perfil de HJ
Quem é, afinal, o autor de tal proposta, em que fontes se baseia e de que
lugar está falando? Hélio Jaguaribe, com 83 anos, formou-se em direito pela
PUC do Rio de Janeiro, lecionou em três universidades norte-americanas e nas
Faculdades Integradas Cândido Mendes. Publicou no Brasil e no exterior 33
livros e dezenas de artigos, entre os quais um sugestivamente intitulado "A
história é implacável com os estúpidos". É o que Gramsci chamaria de um
"intelectual orgânico".
Como é que um moço prendado, culto e com tanto prestígio, membro da Academia
Brasileira de Letras, pode ser tão ignorante e dizer tanta besteira quando
fala de índios? Acontece que HJ nunca colocou os pés numa aldeia, não fez
qualquer pesquisa de campo, e os seus livros não trazem sequer uma palavra
sobre o assunto, até porque essa não é sua área de conhecimento. Está
encantado com a biodiversidade da Amazônia e nem sequer suspeita que grande
parte dela foi construída pelas culturas indígenas. Não tem legitimidade,
nem autoridade e nem humildade científica para tratar do tema.
Ele podia ter consultado a vasta bibliografia etnográfica para não pagar o
mico de achar que as sociedades indígenas são "culturas paleolíticas",
"atrasadas" e "obstáculos à modernidade". Escreve sobre os índios, que não
pesquisou, cometendo a proeza de não citar sequer um só dos tantos estudos
existentes nesse campo. Por isso, não entende o significado do uso da
tecnologia, como o telefone celular, e acaba sendo desrespeitoso, leviano e
impreciso, quando insinua que os índios têm conta bancária em Nova York, sem
citar o nome de nenhum deles.
Baseado apenas em relatórios da Agência Brasileira de Inteligência /ABIN,
Jaguaribe desdenha as fontes etno-históricas. Dessa forma, ignora o processo
histórico, quando considera impropriamente as terras indígenas como "concessões"
feitas aos índios, como uma dádiva, e não como o reconhecimento, pela
Constituição brasileira, de um direito e de uma situação existente antes
mesmo da formação do Estado nacional. Ninguém "deu" terras aos índios. O
legislador apenas reconheceu a terra deles. Seu pai, o general Francisco
Jaguaribe de Mattos sabia muito bem disso, pois foi –quanta ironia!–
cartógrafo da Comissão Rondon.
A imprecisão e a leviandade de HJ se refletem até na forma com que ignora os
dados oficiais. No seu afã de diminuir o tamanho das terras indígenas, reduz
a população a "algo como 200 mil índios", quando uma simples consulta ao
Censo de 2000 realizado pelo IBGE mostraria a existência de 734.127
indivíduos, metade dos quais vivendo em aldeias.
Pouco se conhece da atuação empresarial e partidária de HJ. Numa entrevista
a Kumasaka e Barros, ele contou como criou, em 1953, uma empresa privada, a
Cia. Ferro e Aço de Vitória, que presidiu por uma década. Depois foi viver
nos Estados Unidos. De regresso, fundou uma empresa multinacional
latinoamericana, que comercializa equipamentos, a LATINEEQUIP. Os dois
empreendimentos contaram com recursos de bancos públicos: o primeiro com
apoio de Getúlio Vargas, o segundo, do Banespa.
Presidente de um banco de investimento, HJ diz que é obrigado a realizar
outras atividades, porque aqui no Brasil "é impossível ou quase impossível
se viver do salário de professor universitário". Na entrevista citada, ele
confessa que fica estressado com essa situação de ser "empresário o dia
todo, e de noite, intelectual". Serviu ainda ao governo Sarney, que
encomendou dele o Projeto Brasil, e ao governo Collor, do qual foi
Secretário da Ciência e Tecnologia, sendo obrigado, para isso, a renunciar
aos cargos partidários que tinha no PSDB, partido que ajudou a fundar.
Talvez seja oportuno concluir, lembrando aqui dois renomados espanhóis do
século XVI, que registraram em livro sua experiência na América. O primeiro
deles, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdez, foi prefeito de Santo Domingo,
cronista do rei e autor da ´Historia General de las Indias´, publicada em
1547. O segundo, Bartolomé de las Casas, padre dominicano e bispo de
Chiapas, no México, escreveu ´Historia de las Indias´, em cinco tomos.
Mantiveram uma longa polêmica.
Oviedo, em sua obra, escreve que os índios são burros e de fraca memória.
Las Casas não perdoa e ironiza: "Como é que Oviedo sabe disso, se não
conhecia nenhuma língua indígena, não sabia o que os índios sabiam. Esse
fato deve ter sido inspirado a ele por revelação divina". E finaliza,
advertindo: "Se na capa do livro de Oviedo estivesse escrito que seu autor
havia sido conquistador, explorador e matador de índios e ainda inimigo
cruel deles, pouco crédito e autoridade sua história teria entre os cristãos
inteligentes e sensíveis".
O que poderíamos escrever na capa dos livros de Hélio Jaguaribe? Sua
biografia está no site
www.netsaber.com.br/biografias. Lá, as pessoas podem registrar o que
pensam dele. Nadel Brader escreveu: "Arrogante, preconceituoso e hipócrita".
Luciana Costa registrou: "Babaca. Um cara de mentalidade paleolítica". Sem
concordar com ofensas pessoais, suspeito que ambos resumiram o que muitos
pensam. De minha parte, digo apenas que a história será implacável com quem
só escreve de noite. Desconfia, leitor(a), dos que usam teus nobres
sentimentos de nacionalidade e do teu amor ao Brasil para atacar os índios.
Estão querendo te confundir. Não estão defendendo a pátria, mas seus
interesses particulares.
Publicado en la bitácora del autor titulada
Taquiprati en febrero 2007.
Reproducido en el semanario Peripecias Nº 37 el 28 de
febrero 2007. Se reproduce en nuestro sitio
únicamente con fines informativos y educativos.
|