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L. Novoa Garzon es profesor de la Universidad Federal
de Rondônia-UNIR, miembro de ATTAC, de Rede Brasil y de REBRIP.
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Redesenhar o continente sul-americano, com vistas a uma meticulosa redefinição
de seu papel na divisão internacional do trabalho, a partir da montagem de uma
infra-estrutura regional especializada. Esse é o objeto da IIRSA – Iniciativa de
Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana. Nada menos que a
contrapartida física das políticas de livre comércio. Nada mais que uma
integração regional facultada a alimentar os fluxos mundiais de capitais.
Enquanto perdura o vazio de projeto e de perspectiva conjunta, cristaliza-se uma
agenda reflexa de desenvolvimento voltada para o aumento de escala e de
produtividade das atividades e dos setores transnacionalizáveis. Cunhas inter-oceânicas
para destampar “gargalos físicos”. Sangria desatada de nossas riquezas como o
sistema circulatório normal das cadeias mundiais de suprimento. Dez
megacorredores de exportação sulcados por 300 projetos de infra-estrutura
considerados matriciais e ordenadores dos demais. Convergências regulatórias
para destrancar os “gargalos institucionais”. Novas reformas privatizantes e
liberalizantes para franquear recursos naturais e os setores de energia,
transportes e comunicações dos nossos 12 países.
Diferentemente da ALCA, cujo referencial era a reestruturação hemisférica da
economia norte-americana, a IIRSA surge em terreno latino, sul-americano, pós-colonizado,
como tenebrosa flor de Lácio que brotou em meio à decomposição dos projetos
nacionais nas décadas perdidas dos 80 e dos 90. Formalmente a IIRSA é um
instrumento de cooperação intergovernamental mas, na prática, o que pode ser
intersecção de governos que se fizeram rechear por interesses forâneos, ao longo
desses anos, senão uma conjunção ampliada desses mesmos interesses?
Vocacionados ou condenados
Sem dúvida a América do Sul precisa e quer se encontrar, mas não em script
alheio, batendo em retirada de uma outra América possível, na porta de saída,
como amálgama de peças acessórias em busca disciplinada do encaixe perdido. O
ciclo neoliberal que tentou converter nossos países em meras engrenagens dos
circuitos produtivos e financeiros mundiais não se consolidou, sofreu
reviravoltas na Bolívia, Venezuela e Equador, teve, em maior ou menor grau,
ritmo e forma alterados na Argentina, Uruguai, Brasil e Chile. As políticas
unilaterais de abertura e de subordinação passiva descarrilaram pouco depois de
dez anos de aplicação. Estão em jogo nesse momento memórias conflitantes acerca
dessa trajetória. Para saber aonde vamos é preciso concluir primeiro aonde
chegamos. Descaminhos de repente se tornam caminhos irreversivelmente impingidos
ao território. Inscrita na pele, a condenação de imediato passa por vocação.
Caroline Renteria, colombiana que assume este ano a presidência do CDE - Comitê
de Direção Executiva, máximo órgão decisório da IIRSA, entrou na disputa dessa
memória recente ao ressaltar que é preciso reforçar a imagem da IIRSA como
“fórum de intercâmbio de experiências entre os países sul-americanos”. No
balanço dessas experiências irão prevalecer as privatizações selvagens, o legado
dos desmontes, o arsenal de facilidades logísticas, financeiras e regulatórias
em favor do determinismo dos investimentos privados, ou o aprendizado do
fracasso dessas mesmas políticas derrogatórias que nos levaram, com governos ou
sem governos, a procurar novos espaços políticos cujo maior mérito é sua
indeterminação?
A depender da estrutura administrativa herdada e reciclada pelo sistema de
financiamento multilateral da Iniciativa, cujo ponto focal é o BID - Banco
Interamericano de Desenvolvimento, a IIRSA será um instrumento privilegiado de
expansão dos oligopólios postados no continente ou fora dele. As translatinas,
em especial as “brasileiras”, já vêem a IIRSA como plataforma de consecução de
suas estratégias regionais, e o BNDES tem se colocado a serviço delas, revelando
até onde pode ir seu conteúdo “público”. A integração dos negócios avança sem
anteparos, sem que amadureçam políticas e instituições comuns indispensáveis a
uma verdadeira integração. As mediações inter-governamentais processadas pelo
Mercosul, CAN e, mais recentemente, pela UNASUL, procuram desobstruir o comércio
intra-firma na região e respaldar a multiplicação de plataformas de exportação.
A IIRSA portanto se move
Com a IIRSA, as regras pró-mercado ganham caráter impositivo e inapelável à
medida que o continente vai sendo talhado “fisicamente” como uma zona de livre
comércio. Para tanto, sua estrutura administrativa foi erigida como uma agência
para-estatal a balizar as políticas econômicas, de infra-estrutura e de comércio
exterior dos nossos 12 países. Para se ter uma idéia, o Comitê de Coordenação
Técnica (CCT), composto pelo BID, CAF e FONPLATA, é que dita o escopo e as
funções do CDE, o órgão inter-governamental supremo, em tese. Segundo os
“assessores técnicos” do CCT, o CDE precisa incluir os ministérios-chave, a
saber, o de Economia, de Infra-Estrutura e de Relações Exteriores, de acordo com
as deliberações em questão. “Este enfoque permitiria que as iniciativas que
envolvam decisões vinculadas a negociações internacionais com outros países, e/ou
referidas ao financiamento de projetos e à implementação de marcos regulatórios
e regulamentadores que facilitem a participação do setor privado, contem com o
aval político integral, ao nível de cada governo, correspondente ao perfil e ao
alcance das iniciativas a serem impulsionadas pelo Plano de Ação.” [1]
Enquanto se anuncia uma integração regional em nome dos povos, o cronograma de
institucionalização da IIRSA se apressa em consolidar espaços para que as
instituições financeiras internacionais promovam “assistência técnica em temas
de infra-estrutura regional” para a adequada execução de “projetos de alto
impacto para a integração física”. Projetos estes concebidos no auge da maré
neoliberal, entre 2000 e 2002, e que por isso procuram conformar enclaves
regionais especializados no escoamento de matérias-primas, na oferta subsidiada
e desregrada de terra, água, energia e biodiversidade aos capitais. Desde quando
o que é estratégico para transnacionais, bancos internacionais e países centrais
é estratégico na mesma medida para nossos povos? Será que é preciso lembrar que
a condição de expansão e de primazia destes sempre foi a unilateralidade, a
falta de reciprocidade, o uso da força e da chantagem?
O Plano de Ação 2008 da IIRSA apresentado na última reunião do CDE não nos deixa
esquecer. Preconiza-se como elemento indispensável para o fortalecimento da
IIRSA a sua articulação com outros processos de integração, a exemplo da
experiência colombiana ao compor o PPP - Plano Puebla Panamá. Plano que faz do
México avassalado ao Império, cabeça de ponte para a extensão do Nafta - e suas
redes de maquiladoras, cinturões primário-exportadores, e estoques de mão-de-obra
temporária, a toda a América Central.
Dentro da noite veloz
Projetos como o PPP e a IIRSA pressupõem um estágio avançado dos processos de
privatização e de liberalização econômica. As estratégias de deslocalização dos
capitais e de formação de cadeias globais de suprimentos na periferia são
definidas cada vez mais pelo perfil da infra-estrutura oferecida pelos países
periféricos que disputam a condição de alvos preferenciais de investimentos. O
oferecimento de vantagens regulatórias e logísticas em setores tão sensíveis
como os de infra-estrutura funcionaria como um salvo-conduto para os
investimentos nas demais áreas.
Os Estados na periferia, mais que reduzir as incertezas, têm se esmerado em
construir certezas de rentabilidade, como se sua legitimidade fosse devedora da
extensão e da qualidade do suporte fornecido à acumulação privada. Esforço que
se desdobra na disponibilização de faixas territoriais isentas de ordenamento
estatal, social ou comunitário, além das fronteiras nacionais, a novos arranjos
de poder e a novas coerências. O problema da infra-estrutura programada para
incrementar a mobilidade de mercadorias e de capitais é a antecipação de sua
própria obsolescência. Territórios que só fazem girar, em pouco tempo são
girados, até serem requisitados para novas funções sempre ditadas de fora para
dentro.
Do total dos investimentos já empenhados nos projetos da IIRSA, 60% são oriundos
dos tesouros nacionais enquanto os 40% restantes são divididos igualmente entre
a iniciativa privada e as IFIS [2]. As populações estão arcando com sua própria
descartabilidade sem saberem disso. A sedimentação das zonas de prosperidade nos
países centrais depende da rotatividade de territórios na periferia e semi-periferia
em competição auto-desfigurante. “Vencem” aqueles países/regiões capazes de
antecipar potenciais instrumentalizações de seus territórios através de infra-estruturas
especializadas e de marcos regulatórios maleáveis.
A IIRSA pretende ser uma demonstração de como quantidade - escala, vazão, fluxo
- intercambia-se em qualidade - controle, eficiência e estabilidade. Os
monopólios privados podem assim planejar a alocação de recursos no continente de
forma desimpedida e com custos rebaixados na origem. A necessidade de dispor os
espaços nacionais e o regional torna prioritária a reforma das regulamentações
ambientais e sociais vigentes nos 12 países. A IIRSA já acoplou à implementação
de seus projetos um instrumento de adequação ambiental e social, a Avaliação
Ambiental e Social com Enfoque Estratégico (EASE). Seu objetivo é estabelecer
“ações complementares para potencializar, do ponto de vista sócio-ambiental e
cultural, os efeitos positivos dos projetos e minimizar seus impactos
negativos.”
A EASE tal qual profecia auto-cumprida parte de fragmentos - os grupos de
projetos que compõem cada “eixo de integração” -, para fragmentos conjugados -
as “unidades territoriais intermediárias”. A EASE serviria, em suma, para
orientar a “tomada de decisões ambientais, sociais, institucionais e econômicas
para o melhor desenvolvimento possível dos Grupos de Projetos e a gestão de suas
conseqüências.” [3] “Melhor possível”, na ótica dos formuladores e
patrocinadores. E que meio ambiente e povos circunscrevam-se à “gestão das
conseqüências” dos projetos.
Aterrissar as alternativas
Caracterizar a IIRSA como um vetor de agregação de coerência às políticas de
liberalização comercial e de financeirização, em prol de sua efetividade, não é
suficiente. Inútil reivindicar uma outra integração fundada no compartilhamento
de habilidades, riquezas e potencialidades comuns sem que tenhamos estratégias,
sujeitos e ferramentas que façam tais virtualidades descerem ao chão. Um marco
alternativo de integração será resultado de experiências concretas de integração
dos povos, acumuladas no exercício do controle de territórios e bens comuns.
Como ainda não temos um programa de navegação fluvial na bacia amazônica voltado
para a dinamização e fortalecimento dos povos amazônicos? Como ainda não
concebemos matrizes energéticas diferenciadas por bioma, propiciadoras de
múltiplas pequenas escalas até agora relegadas? Como podemos permitir que o
agronegócio e agências multilaterais se encarreguem da gestão de nossas bacias
hidrográficas e aqüíferos transfronteiriços?
Não basta proferir alternativas, precisamos salvá-las entrincheirando-nos diante
do que pode torná-las impeditivas. Além da denúncia no atacado é preciso
escancarar os interesses que se cruzam em cada projeto na IIRSA. Expor os grupos
econômicos envolvidos e suas práticas predominantes. Provar no curso da
edificação desses territórios empresariais o que eles são sem disfarces,
desgastando-os, retirando-lhes legitimidade. É preciso desmistificar
expectativas de parte considerável da população já desenraizada, por isso mesmo
disposta a aceitar qualquer tipo de crescimento. E produzir conhecimento crítico
enquanto mantemos vivas as trincheiras que sustentam o impasse no continente e
seu futuro entreaberto.
Notas
[1] Comitê de Coodenação Técnica - Plano de Ação para a Integração da
Infraestrutura regional da América do Sul – 2000 (tradução do autor) Disponível
em 27 de março de 2008
aqui
[2] Ver Plano de Ação 2008 da IIRSA disponível
aqui
[3] Disponível
aqui
Publicado por la
Rede Brasileira de Justiça
Ambiental - RBJA. Reproducido en el semanario Peripecias Nº 92 el
16
de abril de 2008. Se reproduce en nuestro sitio únicamente con fines
informativos y educativos. |