Peripecias Nº 47 - 9 de mayo de 2007

MUNDO

 

 

Da vergonha dos muros

 

Renato Bock

 

 

 

Renato Bock es un economista brasileño.

 

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Os muros servem para isolar. Servem para excluir, separar, segregar. Se existisse uma "expressão matemática do muro", com certeza, ela seria "função" do capitalismo. O sistema social que vivemos tem como uma de suas premissas a acumulação e como máxima, a individualização e a conseqüente exclusão.

 

Certa nação acolheu por 28 anos um muro que recortava um país ao meio. A esse muro convencionou-se chamar de Muro da vergonha. Ora, os muros servem para por fim a hiatos sociais vergonhosos e por isso quase todos podem ser denominados de muros da vergonha.

 

Quem ergue um muro é por que tem vergonha de algo. Algo ou alguém para esconder. Algo ou alguém para temer.

 

Degraus sociais cada vez maiores, resultantes de um sistema social meritocrata nos levam à construção de uma humanidade emoldurada por muros. Barreiras físicas, sociais, ideológicas, étnicas, culturais fazem proliferar muros numa sociedade onde a tolerância escasseia a cada dia. É mais fácil erguer um muro do que tentar solucionar diferenças e incentivar a tolerância.

 

Exemplo de um muro muito bem erguido pelos pilares da sociedade moderna leva o nome de automóvel: No século XIX, o estalar dos chicotes lançados sobre os lombos dos cavalos que puxavam as carruagens sofreram um grande revés. Um barulhento motor a vapor montado sobre a carruagem emudeceu os gritos dos cocheiros e o ricochetear dos chicotes. A partir daí sistemas de freio, de aumento de potência, de fabricação em série, etc, trataram de bifurcar a história da locomoção humana. Para um lado seguiram as carruagens e para o outro o automóvel.

 

O Benz, desenvolvido em 1855, contando com 2 lugares, 3 rodas e um motor de 4 tempos que o levava a velocidade de 13 Km/h foi o primeiro veículo autopropulsionado. Foi o marco onde a diferença entre carruagens e automóveis se tornou visível.

 

No começo os automóveis eram abertos, suscetíveis às intempéries do clima. Com a evolução eles ganharam vidros, teto, portas, etc. O homem logrou locomover-se com mais rapidez, segurança, e sob qualquer clima. As distâncias ficaram mais curtas e, estando a salvo do clima, o ser humano ficou mais saudável.

 

A tecnologia aplicada aos veículos, apimentada pelo motor do capitalismo plenamente desenvolvido, transformou os carros em objetos de fetiche e símbolo de status. Com o aumento constante no preço e a crescente fetichização do meio de transporte o automóvel tornou-se um símbolo de status social.

 

A aristocracia e a burguesia desfilaram, a partir de 1950, em automóveis condizentes com a expansão global do capitalismo moderno, enquanto que o imprescindível Exército Industrial de Reserva (EIR), engrossava as estatísticas de fome e exclusão social. Como já é sabido o capitalismo necessita da seiva humana para azeitar seu desenvolvimento por dois lados distintos: De um lado, a mão de obra de onde se extrai a mais valia e, de outro, o EIR, que garante o baixo preço da reprodução da mão de obra. Desde essa época os desempregados de todo o mundo ouvem o inebriante ronco dos cilindros dos motores mais modernos, enquanto que as classes mais altas, apenas sentem as vibrações de dentro dos receptáculos completamente vedados de seus veículos. Emoldurados por uma mistura de aço, vidro e borracha os mais ricos possuem um muro ambulante a serviço da exclusão social. A rua, supostamente um local de sincretismo social, de comunhão de todas as classes, credos e origens, se transforma numa praça de batalha onde os incluídos do capitalismo circulam com seus automóveis, enquanto que a imensa maioria da população espreme-se em coletivos mal cuidados, ou mesmo à pé.

 

A elevação de mais este muro tomou proporções inimagináveis nos últimos anos. A tecnologia empregada nos automóveis visa, cada vez mais, o isolamento do motorista e seus convidados das condições sociais do mundo exterior. A proteção com relação ao clima já foi superada há muito tempo pela proteção com relação às adversidades sócio-econômicas. A modernidade dos séculos XIX e XX foi comprimida pela ausência de homogeneidade e pela individualização que traz a pós-modernidade. O carro tornou-se o simulacro da realidade, tornou-se o ambiente que permite à elite circular em meio à pobreza protegidos das intempéries dos excluídos.

 

No Brasil a o muro é ainda mais evidente. O País é hoje um dos maiores consumidores de carros blindados do mundo, enquanto que 50% de sua população vive na miséria. A indústria automobilística mobiliza suas plantas para produzir pedaços de metal hermeticamente fechados e protegidos da realidade. A tecnologia costura revoluções no sentido de resguardar os possuidores de autopropulsionados daquilo que efetivamente os cerca.

 

Rodas e motores os fazem avançar rápido; teto, ar condicionado, ar quente os protegem do clima, vidros blindados da violência; aparelhos de CD os protegem do som externo; sachês, dos odores e sabores; volantes e estofados confortáveis, da textura; enfim, um automóvel blindado consegue isolar 4 dos nossos 5 sentidos de percepção. Minha esperança é que os vidros dos carros ainda cumpram a função de postigo e nos permitam espiar o lado de fora para que saibamos que algo precisa ser feito e que com certeza encapsular os seres humanos num mundo do lado de fora dos carros não é a solução.

 

Desse último resquício de contato entre um lado e outro do muro é que resta uma ponta de esperança. Ainda nos dias de hoje costuram-se tentativas de reduzir o número de muros e de aumentar a tolerância. Esse último vão que nos permite enxergar o lado de lá ainda nos traz esperança por meio de promessas.

 

Promessas são o resultado de gente que luta para que este último postigo, essa última janela, esse último sentido humano, sirva para formar consciência e lutar com eles contra o fechamento hermético desse muro social. As promessas são, pragmaticamente, tudo e todos que por meio de ações, comprometem-se em não deixar a janela se fechar e dão esperanças sobre um mundo melhor sem muros. As promessas de um mundo mais justo e sem muros tem como força de trabalho essas pessoas que incentivam e promovem a equidade social.

 

Quanto menor o hiato social e quanto maior a tolerância, menos os muros sentem-se fortes para prosseguir crescendo. Quanto mais prometido está um mundo melhor sem os muros, mais os buracos nele aumentam e menos um tijolo é empregado em sua construção.

 

Precisamos construir consciência por meio das pessoas convictas da melhor evolução da humanidade com menos muros e que por isso, por meio de promessas, ganhem adeptos que auxiliem na redução das barreiras. Não precisamos de demagogos e promessas vazias, mas sim promessas fundamentadas no empírico. Promessas que imbuam as pessoas a olharem por essa última janelinha no muro. Promessas que sirvam como uma voz do outro lado tentando te aliciar a conhecer a outra realidade. Uma imagem, um som que ao menos crie a curiosidade de saber o que se passa do lado de lá.

 

Publicado en el semanario Peripecias Nº 47 el 9 de mayo de 2007. Se permite la reproducción del artículo siempre que se cite la fuente. Licencia de Creative Commons con algunas restricciones.

 

 

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