|
Foram dois choques do Petróleo (1973 e 1979) e uma crise dos juros
norte-americanos (1981) os principais estopins de uma aguda crise na América
Latina. Cresceram as dívidas externas contraídas com intuito de montar uma
indústria genuinamente regional e galopou a inflação na região.
Em 1990 a cartilha do Consenso de Washington prometia a estabilização
neoliberal. Na última década do Século XX os países latino-americanos
adotaram políticas econômicas que traziam a sensação de riqueza sem que
precisassem produzir mais. Pela cartilha os países podiam pagar salários
maiores, gerar lucros maiores, tudo financiado por dívidas públicas e
privatizações.
No entanto, a miragem neoliberal se desfez tão logo foram necessários o
crescimento e o desenvolvimento.
Com suas economias baseadas na exportação de commodities (produtos
primários - agrícolas e minerais) os países se viram amarrados e dependentes
dos fluxos de capital.
Boa parte do problema estaria solucionado se a excelência agrícola dos
países da região fosse recompensada internacionalmente na forma de bons
preços. No entanto, o que ocorre é que os países ricos, assumindo sua
incapacidade de produzir commodities com preços e qualidade
competitivas injetam em suas plantações cerca de US$ 400 bilhões por ano na
forma de subsídios. Como conseqüência os produtores destes países têm
garantida sua renda mesmo que não vendam suas produções. Dessa forma, os
produtos dos países latino-americanos não conseguem penetrar nesses mercados
e acabam tendo que baixar seus preços para conseguir escoar a produção.
Graças a essa dinâmica nada eqüitativa os preços das commodities nos
mercados mundiais caíram em média 3% ao ano desde o fim dos anos 70.
A condição de exportadores de produtos primários pode ser comprovada quando
verificamos que as exportações de produtos primários cresceu 101% entre 2000
e 2003 enquanto que as de produtos semimanufaturados cresceu 42% e as de
manufaturados apenas 32%.
A essa altura o leitor já deve estar se perguntando: E a Colômbia?
Esse um típico exemplo de país onde as políticas neoliberais conseguiram
arruinar a economia local que era baseada na produção de banana-da-terra e
mamão. Um país totalmente agrícola que se viu amordaçado por políticas que
derrubaram os preços do que os mantinha vivos. Com uma miséria incalculável
nas áreas rurais e problemas políticos impulsionados pela pobreza o país
vive hoje encurralado.
A Cocaína não gera grandes lucros para o produtor. Como qualquer outro
produto primário, grande parte de seu valor agregado fica com o setor de
transportes e/ou com atravessadores. A principal diferença da pasta de coca
produzida nas selvas colombianas para commodities lícitas é que a
coca vende muito bem no mercado internacional. Os produtores tem a certeza
de que ela vale como moeda de troca, o que não seria garantido com a
produção de bananas, por exemplo. Sabem que quase não há concorrência pois
75% da produção dessa commodity é colombiana bem como sua escassez
garante preço bom. Não existem outros países que a produzam de forma
subsidiada e seu consumo é sempre crescente. Nos EUA uma grama de Cocaína
pode valer 80 vezes mais que seu valor de produção, pois à medida que o
Plano Colômbia e o Plano Patriota avançam se torna cada vez mais difícil
exportar a droga.
Como em qualquer outra atividade rural para exportação, a monocultura traz o
esgotamento do solo bem como a soja para exportação está acabando com o
Cerrado brasileiro.
Como outras produções no período da globalização essa depende de insumos de
outras praças. A cocaína depende de grandes quantidades de produtos químicos
para seu refino que são produzidos e comercializados livremente no mercado
norte-americano.
À parte da conseqüência nefasta do consumo da cocaína nos grandes centros,
sua produção e comercialização obedece aos mesmos mecanismos econômicos que
muitos outros ao redor do globo. No entanto, a Coca e o Petróleo são hoje as
únicas commodities que ainda conseguem preços e renda na sua cadeia
produtiva. São commodities que não tiveram seus preços deprimidos
pelas políticas neoliberais mas que carregam consigo um peso negativo no que
tange suas influências sociais e políticas.
Publicado en
Onde está América Latina?
Reproducido en el semanario
Peripecias Nº 50 el 30 de mayo de
2007. Se permite la reproducción del artículo siempre que se cite la fuente.
Licencia de Creative Commons con algunas restricciones.
|