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Por que o Brasil parece, às
vezes, tão grotesco? É uma pergunta até simples, se você comparar com a que abre
o romance de Vargas Lhosa: quando é que o Peru se fodeu?
Embora não queira reduzir o
quadro, a contradição entre instituições de controle e um sistema político
apodrecido continua a ser a grande reveladora dos escândalos.
No caso da Operação Navalha,
os suspeitos foram fotografados e ouvidos amplamente. Renan Calheiros achou que
poderia apresentar documentos para um senado complacente.
Não
contou com a equipe de tevê que iria checar recibo por recibo, lá em Alagoas,
onde sua história foi escrita. A mídia é uma instituição de controle.
Quando, no passado, briguei
com o Wellington Salgado, ele disse que eu era um homem bomba.
Hoje, quando Salgado e
outros aparecem na televisão, considero-me gozando aposentadoria. Eles mesmos se
explodem. A simples exposição de um debate no Conselho de Ética é suficiente.
Grandes contradições quando
se desdobram não são retilíneas. Há sempre recuos, indecisões, desespero. Ouso,
no entanto, dizer que estamos no bom caminho.
Existem , no mínimo, dois
problemas entrelaçados: o gigantismo e ineficácia da máquina do estado e a
decadência dos políticos. Eles se alimentam e interagem de várias maneiras.
Para colocar a máquina do
estado a serviço do país é preciso derrotar a visão dominante na política. Para
reduzir a corrupção, idem.
A grande luta está em curso.
Muitos vêem os escândalos como fato isolados. Não se consegue estabelecer um
vínculo entre eles. São gemidos de um mesmo prolongado parto.
Nem sempre se pode ter uma
visão fria na frente de batalha. São grandes as dores de ver amigos se
decompondo no medo e na cumplicidade.
Creio que nesse ponto, tanto
Calheiros como nós, vivemos uma experiência pedagógica sobre o ser humano. No
princípio, foi uma manobra quase unânime para mantê-lo. Com o tempo, alguns
subiram no muro.
Quando esses processos são
postos em marcha, vive-se um intenso psicodrama. Há os que vão para o buraco e
os que se revelam subitamente envelhecidos. Mas o país avança, ainda que de uma
forma nebulosa.
A reforma do estado e o
combate às causas da corrupção dependem dos políticos que se beneficiam dela. É
esse obstáculo que o Brasil está tentando saltar, com instituições de controle e
opinião pública. Se soubermos combinar tudo com um leve apoio internacional
serão mais amplos os horizontes do combate.
Publicado en el
blog del autor el 23 de junio
2007. Reproducido en el semanario Peripecias Nº
54 el
27 de junio de 2007. Se reproduce en nuestro sitio únicamente con fines
informativos y educativos. |